Abril 2002

Laticínio gera renda na colônia penal do Pará

Paulo Roberto Ferreira

de Santa Isabel do Pará

A venda de queijos, iogurtes, doces de leite, manteiga e requeijão gera uma renda de R$ 20 mil por ano ou R$ 1,6 mil por mês ao projeto "Produtos Liberdade". O empreendimento não pertence a nenhum fazendeiro ou empresa privada. Trata-se de uma experiência inédita no Brasil, que envolve presos na criação de búfalos e na organização de um pequeno laticínio no interior do Pará. Tudo começou em 1997 na Colônia Agrícola Heleno Fragoso, localizada no complexo penitenciário de Americano, em Santa Isabel do Pará, a 50 quilômetros de Belém.

A Embrapa Amazônia Oriental cedeu, em regime de comodato, 30 matrizes e um reprodutor, com o compromisso de que a cada ano, cinco fêmeas são devolvidas para o rebanho da instituição. Os presos aprendem a tratar dos animais, ordenhar, acompanham os partos e fazem inseminação artificial. Oito internos trabalham no criatório de búfalos e a cada três dias de jornada, convertem um na redução de suas penas. Além disso, ganham uma ajuda de custo de R$ 60,00, sendo que uma parte, R$ 20,00, vai para uma caderneta de poupança, que será liberada ao final da pena.

O agrônomo Amauri Burlamaqui Bendahan, diretor de produção da Superintendência do Sistema Penal do Estado (Susipe), explica que a experiência só é possível porque conta com a parceria de instituições como a Embrapa e a Universidade Federal do Pará, que mantém, em Castanhal (cidade vizinha ao local da penitenciária), a Central de Biotecnologia de Reprodução Animal (Cebran). Além de ocupar e formar os internos da penitenciária, o projeto presta serviços para terceiros, como a preparação de inseminadores e a venda de sêmen de animais.

Os búfalos, apesar do tamanho e da fama de animais bravos, na realidade são dóceis e de fácil manejo. Quem diz isso são os próprios presos. Reginaldo Villar, que nasceu em Parnaíba, no Piauí, começou a trabalhar desde criança com gado leiteiro da raça gir. " O búfalo é mais obediente, basta falar o nome dele que ele atende a gente", explica o interno, que já aprendeu a aplicar vacina nos animais.

João Alves, técnico agrícola do Sistema Penal, responsável pelo projeto, garante que a búfala é o único animal que permite a ordenha por trás, sem bater no trabalhador. "A gente nem precisa amarrar a búfala para retirar o leite", diz Alves, sentado no lombo de um animal. O projeto conta com estrelas como a búfala "Alfavaca", que produz 13 litros por dia de leite, "Negrita", com 12 litros/dia e "Hegemonia", com 10 litros/dia. Os animais pertencem às raças Murrah e Mediterrâneo.

Até o ano passado, todo leite coletado era vendido para os funcionários públicos do Pará. Mas com a montagem do laticínio, a produção de queijo, iogurtes, doces, requeijão e manteiga vai tudo para uma loja do Sistema Penal, em Ananindeua, município da região Metropolitana de Belém. O laticínio foi financiado com recursos do Ministério da Justiça e em parceria com as secretarias estaduais de Agricultura e Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente.

O laticínio ainda está operando com apenas 10% da sua capacidade instalada, que é de 200 litros/hora. No final de semana o leite coletado é todo distribuído para os 150 presos que cumprem pena na colônia agrícola, que também ocupa os internos com outros projetos, como a criação de cabras, suínos, patos e o cultivo de hortaliças.

O presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Búfalos (ABCB), Rogério Loures, visitou a colônia Heleno Fragoso e ficou admirando com o trabalho. Num encontro que manteve com o governador do Pará, Almir Gabriel, anunciou que vai recomendar, como modelo, a experiência paraense ao ministro da Justiça, Aloisio Nunes Ferreira.

Fotos: Rodolfo Oliveira/Ver-a-Mídia